Quais os limites da colonização? Uma visão sobre o colonialismo retratado em Robinson Crusoé de Daniel Dafoe

 


São Benedito, 29 de Setembro de 2021

Olá meus amigos,

A partir de nossas últimas conversas sobre a obra do autor Daniel Dafoe, Robinson Crusoe, comecei a refletir sobre a questão da colonização dentro da obra e como ela é retratada.

Primeiramente gostaria de lembrar que o livro foi originalmente lançado em 1719, em formato de folhetins no “The Daily Post” em Londres. Como já havíamos percebido o romance é escrito em forma epistolar e narrado como uma autobiografia. Com isso podemos perceber boa parte dos pensamentos do próprio Crusoe e como ele encontra motivação para o que faz. Como o mesmo diz, ainda no prólogo, “Eu sou o culpado das minhas próprias desgraças”. (DAFOE, 2011, posição 4)

Em 1700, a exploração marítima ainda ocorria e a Inglaterra era a grande potência mundial, com diversas colônias ao redor do globo e sua prática mercantilista já estabilizada. Dafoe retrata tais fatos através dos pensamentos do jovem Robinson, que tem noção das colônias e aprende as rotas de exploração marítima, além do seu fascínio pelo mar e a ideia de fazer fortuna em algum lugar de maneira rápida e não precisar aguardar anos para ter algum retorno.

A mente de Robinson é claramente a de um burguês Inglês do século XVII: Ambicioso, e o que mais importa a este texto, colonialista.

Como demonstraram estudos modernos, a trajetória de Robinson Crusoé baseia-se mais especificamente em alguns dos incontáveis volumes sobre as explorações daqueles viajantes que, no século XVI, contribuíram muito para o desenvolvimento do capitalismo proporcionando o ouro, os escravos e os produtos tropicais de que dependia a expansão do comércio e continuaram o processo no século XVII desenvolvendo as colônias e os mercados internacionais dos quais dependia o futuro progresso do capitalismo. (WATT,1996, p. 61)

 


Isso fica claro quando o mesmo chega ao Brasil e fica como colono. Em sua parada, logo após ser resgatado no mar por um navio português, o protagonista se instala no Brasil e inicia a produção de cana de açúcar e assim começa a prosperar. Em nenhum momento o personagem demonstra estranheza na escravidão que acontecia, mesmo depois de ter sido feito de escravo pelos mouros. Muito pelo contrário, ele ainda vende seu companheiro de fuga como escravo para este mesmo capitão, confortando-se com a ideia de que “Ele lhe libertará em 9 anos” (DAFOE, 2011, posição 305 ) Acredito que isto tenha ligação com o fato da normalização, no aspecto colonizador, de sempre escravizar os pagãos em sua maioria africanos.

Mas vamos pensar um pouco sobre o que é colonialismo. Segundo o dicionário Michaelis online pode se definir o termo como "Sistema Político, econômico e social caracterizado por um processo de dominação pelo qual uma nação mantém ou estende seu controle sobre territórios ou povos estranhos" (2011). E esse era o sistema político utilizado pelo reino britânico quando o livro que está sendo observado foi escrito. Então em todos os momentos da obra, tanto Crusoé quanto os capitães dos navios que ele embarca tem esse pensamento de que não só pode, mas deve descobrir novas terras e tomar posse desses territórios. Toda essa prática de colonização ainda perdura até os dias atuais, mas isso é conversa para as próximas cartas.

Após naufragar sozinho em uma ilha, Robinson inicia novamente a sua tentativa de colonizar um local. Isso fica claro quando, mesmo sem ainda ter encontrado os nativos, ele crava uma bandeira inglesa na terra, demonstrando que ali é território inglês. Um ponto importante a se acrescentar é que Robinson tem todo um controle sobre a natureza seja no Brasil, onde sua produção fica tão grande que ele precisa de escravos, ou na ilha que ele está sozinho onde consegue domesticar animais, caça-los e usar todos os recursos ao seu favor. A ideia de que o colonizador tem não só o direito, mas o domínio deste espaço fica expressamente retratado nestas passagens.



Depois de já ter tornado a ilha sua propriedade, de forma a ter duas casas “uma de campo e uma de praia”, o protagonista encontra-se com um nativo e nessa fase da história se inicia todo o processo de colonização dentro de um âmbito do social. Primeiramente ele batiza o nativo de Sexta-feira, não se importando se o mesmo gostaria de receber um nome ou se adorava a algum deus, para Crusoe ele era um pagão e precisava urgentemente da palavra divina. Além de ensinar a palavra Amo antes de ensinar “sim” ou “não” para o jovem, ele utiliza dos artifícios já conhecidos para inserção da cultura que se dizia dominante: Ensina a língua, religião e escraviza os que vem a ele, colocando-os em posição de inferioridade.

A fabricação da imagem de si mesmos como superiores, e a do ‘outro’ como inferior, funciona como estratégia de manutenção da autoridade, uma vez que mexe com o consciente coletivo inclusive, tanto de colonizador quanto de colonizado, numa busca constante pela superação dos próprios medos, refletido na necessidade de impor-se e controlar o desconhecido, através da distorção da imagem do ‘outro’ (FONSECA DIAS, 2008, pp. 10-11).

 

É importante observar que essa era a ideia que os ingleses tinham na época, de que a colonização era uma forma de fazer fortuna e de manter seu projeto mercantilista vigente. Dafoe, no entanto, traz o questionamento sobre os limites da colonização. Enquanto você cuida da terra e a faz de forma de subsistência, está de forma condizente com os seus valores, com o que prega o livro santo ao qual os colonizadores utilizavam para professar sua fé. A partir do momento que você enxerga o outro como algo menor que você, precisa repensar se está no caminho correto.

Não é o Eu colonialista nem o Outro colonizado, mas a perturbadora distância entre os dois que constitui a figura da alteridade colonial – o artifício do homem branco inscrito no corpo do homem negro. É em relação a esse objeto impossível que emerge o problema liminar da identidade colonial e suas vicissitudes. (BHABHA, 2010, p. 76)

Observando todos os tópicos apresentados pode-se concluir que a obra de Dafoe, traz não só os aspectos da mente burguesa da época, mas também uma forte crítica a forma com que a Inglaterra concentrava sua atividade mercantilista em exploração não só de outras terras, mas também dos povos originários delas.

 

Estas são minhas Referências Bibliográficas, caso queiram ler um pouco mais:

BHABHA, Homi K. O Local da Cultura. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 1998

DAFOE, Daniel. As Aventuras de Robinson Crusoe. L&PM.,2011, Ebook Kindle

FONSECA DIAS, Daise Lílian. A Ideologia Imperialista na Literatura Colonial Inglesa. Anais do II Encontro Internacional de História Colonial. Mneme – Revista de Humanidades. UFRN. Caicó (RN), v. 9. n. 24, Set/out. 2008.

MICHAELIS moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo, Melhoramentos. (Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/colonialismo/ Acessado em: 01/10/2021)

WATT, Ian. A ascensão do romance: estudos sobre Defoe, Richardson e Fielding. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

 

Abraços de sua companheira de universidade, 

Natália Cunha


Comentários